Obesidade: problema de saúde pública

Saiba mais sobre essa enfermidade que já afeta milhões de brasileiros e impacta os cofres públicos

Por Folha Universal 22/06/2022 - 08:25 hs
Foto: rawpixel.com

À medida que os anos passam, cientistas e pesquisadores conseguem entender cada vez melhor o funcionamento de cada “microparte” do organismo humano e podem alertar as pessoas sobre o que faz bem e o que é prejudicial à saúde delas. Contudo, mesmo com tanto conhecimento, muitos comportamentos comuns atualmente têm levado ao desenvolvimento de problemas de saúde que poderiam ser evitados.


O sedentarismo e a má alimentação, por exemplo, são apontados como fatores que impactarão fortemente o mundo nos próximos anos. Estimativas do Atlas Mundial de Obesidade mostram que até 2030 cerca de um bilhão de pessoas em todo mundo serão obesas.


Esse problema afeta a saúde individual, mas também toda a sociedade, já que implica em gastos no sistema de saúde que poderiam ser evitados. De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o gasto com casos de câncer relacionados à obesidade entre adultos em 2018 se aproximou de 50% do total aplicado para o tratamento da doença no Sistema Único de Saúde (SUS).


Afinal, o que é obesidade?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define obesidade como o excesso de gordura corporal, em quantidade que determine prejuízos à saúde. Para que uma pessoa seja considerada obesa, o seu Índice de Massa Corpórea (IMC) deve ser maior ou igual a 30kg/m². A conta para saber o IMC é: altura (em metros) multiplicada por ela mesma. Peso (em quilos) dividido pelo resultado da primeira conta.


O cardiologista Giulio Cesare cita que “a obesidade é um fator de risco para várias doenças cardiológicas, como pressão alta, infarto, doenças coronarianas e até diabetes”. Cesare diz que a obesidade é uma doença complexa e que surge por diversas razões: “o fator genético é importantíssimo. Se a pessoa vem de uma família com histórico de obesidade, suas chances de se tornar obesa são maiores. Doenças metabólicas, disfunção na tireoide, dieta e sedentarismo também são apontados como possíveis causas da doença”.


Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2020, aproximadamente 60% dos adultos brasileiros estão com excesso de peso, o que equivale a 96 milhões de pessoas. Os índices mostram crescimento da enfermidade no País e alertam para a necessidade de promover mudanças, principalmente por meio da conscientização, já que o problema também tem afetado cada vez mais as crianças, que são influenciadas pelos adultos.


De acordo com o Ministério da Saúde, em 2019, cerca de 13% das crianças com idade entre cinco e nove anos acompanhadas pelo SUS estavam obesas, enquanto 28% tinham excesso de peso. Cesare ressalta que isso é muito perigoso, pois estar obeso desde a infância faz com que o organismo esteja enfermo por mais tempo, o que leva a pessoa a correr maiores riscos de desenvolver outras doenças relacionadas, como o câncer.


Tratamentos instantâneos

Para reverter o quadro rapidamente, muitos buscam receitas mirabolantes na internet ou apelam para a automedicação, atitudes que podem trazer mais problemas de saúde. Cesare explica que há medicamentos usados no tratamento da obesidade que são indicados em conformidade com os riscos que o paciente corre.


“O paciente, porém, não pode ver essa como a única saída. A obesidade é uma doença multifatorial e, assim, todos os fatores precisam ser combatidos. Por isso, o controle da obesidade é tão difícil, pois envolve, inclusive, questões psicológicas, como depressão e ansiedade.”


Epidemias Paralelas

Em todo o mundo, inclusive no Brasil, a obesidade se transformou em uma espécie de epidemia, assim como a ansiedade. Segundo a OMS, cerca de 9% da população brasileira sofre com transtorno de ansiedade, índice que faz o País liderar o ranking mundial de pessoas com a doença. De acordo com a psicóloga Larissa Meilick, “é possível que exista uma ligação entre a ansiedade e a obesidade. Isso porque a pessoa que está ansiosa tem grande preocupação com o futuro ou apresenta um vazio emocional e [nessa condição] o corpo busca prazer e a comida age como uma recompensa por meio da liberação da serotonina”, chamada de hormônio da felicidade.


Larissa declara que traumas e sentimentos de carência ou culpa também levam muitos a tentar compensar com a comida um problema interno. Para alterar esse quadro é preciso investir no autoconhecimento: “é importante que a pessoa saiba o que está por trás daquilo que ela está fazendo, ou seja, qual é a razão. Pode ser uma questão genética, física, mas também estar ligada a um problema emocional”.


Alinhar todas essas áreas da vida depende de um esforço contínuo em sair do automático e buscar viver a melhor versão de si mesmo a cada dia. “Precisamos resgatar o óbvio, que é dormir melhor, escolher alimentos que fazem bem, beber mais água, praticar exercícios, estabelecer horários fixos para mexer no celular, etc. Esses detalhes são importantes porque um hábito puxa o outro. E, para vencer um comportamento prejudicial, é preciso substituí-lo por outros benéficos”, orienta.


A saúde começa na mente

O estilo de vida atual leva os adultos a optarem por comidas rápidas e congeladas, que têm excesso de gordura e conservantes. A ingestão desses produtos em demasia influencia diretamente no peso, na saúde e na qualidade de vida do indivíduo, mas a conta chega no curto, no médio ou no longo prazo.


Segundo a nutricionista Daisy Fini, “alimentos que têm o valor energético aumentado, que são extremamente calóricos, como ultraprocessados, fast-food, frituras, massas e produtos com muito açúcar, pioram a saúde de um modo geral porque elevam o colesterol, os triglicerídeos e levam ao aumento das doenças crônicas, inclusive a obesidade”.


Para Daisy, a mudança de hábitos alimentares tem impacto direto na saúde física e para que ela ocorra é preciso se conscientizar dos efeitos causados por tudo que ingerimos. “Políticas públicas também são importantes para trabalhar a mudança de comportamento e reverter o quadro”, reforça.


Uma vez que a obesidade é um problema de saúde pública que também afeta economicamente Estados e municípios em razão de gastos com tratamentos, é preciso que haja investimento em campanhas de conscientização e incentivo à prática de atividades físicas. Cabe ao governo promover também estratégias para estimular a alimentação saudável e reduzir preços dos produtos in natura, além de evitar o desperdício desses itens. É preciso ainda adotar medidas que possam inibir a comercialização de alimentos que não trazem benefícios à saúde e incentivar a indústria a reduzir o uso de compostos prejudiciais, como conservantes.


Para vencer essa epidemia e contrariar as expectativas é preciso que cada um lute por si, mas também por todos.